Quem veio antes: os ovos ou o descompromisso público?

Entre tantos assuntos político-piadas-prontas-polêmicos em nosso noticiário, um deles me chamou muita atenção. A manchete da BBC News dizia: “Protestantes brasileiros atacam política com ovos em seu casamento”, aumentando o coro de vários outros veículos nacionais e internacionais. A “política” se defendeu atacando o que chamou de “protestos de setores de esquerda e sindicatos”. Risadas à parte, esse assunto puxa questões de um buraco mais fundo do que rombo da previdência.

Resumindo o borogodó. O evento era o casamento da deputada estadual do Paraná, Maria Victoria, pessoa pública por sua própria posição, mas também filha do ministro da Saúde do governo Temer, Ricardo Barros, e da vice-governadora do Paraná, Cida Borghetti. Os noivos escolheram uma igreja no centro histórico de Curitiba para a celebração e de lá partiram caminhando para o local da festa, o Palácio Garibaldi, um imponente prédio que já foi sede do Tribunal de Justiça e da Academia Paranaense de Letras. Os valores e luxos da festa foram amplamente divulgados pela imprensa local.

É sabido que casamentos movimentam muito dinheiro e a indústria do luxo navega muito bem nessa onda. E cada um, como diria meu avó, faz o que bem quiser com seu dinheiro. Quer gastar uma fortuna no casamento, o dinheiro é seu, faça o que quiser. Quer fazer uma festa íntima ou um festival para milhares de pessoas, é problema seu. Eu, nem ninguém, tem nada a ver com isso. Eu busco sempre primar pelas liberdades individuais e o direito de cada um fazer o que quiser, na hora e forma que quiser.

Porém, ah porém. Pessoas públicas estão diretamente conectadas com causas públicas. Ao se candidatarem e serem eleitas (ou serem indicados, no caso do ministro), elas se tornaram servidores públicos. Agentes da coisa pública, representantes do povo. Uma deputada estadual, um ministro da saúde e uma vice-governadora, foram uma tríade familiar indissociável da coisa pública.

Não preciso comentar o caos da gestão publica brasileira, respingando também nos âmbitos estaduais e municipais. A saúde pública brasileira nunca foi um exemplo. Não é raro esbarrar com histórias de falta de atendimento, recursos e profissionais, casos de sobrecarga e negligência. Filas, esperas, horas, mortes e sofrimento. Isso por que não existe dinheiro suficiente? Não! Pela ineficiência de gestão e desvio de recursos.

Nesse cenário, se coloque no lugar de um pai de família que fica 3 horas na fila para conseguir atendimento para o filho doente ou para uma senhora esperando no corredor sofrendo um infarto. Ostentar riqueza em meio ao caos e à desigualdade que eles se propuseram a combater em suas campanhas, é zombar do sistema e dos excluídos das benesses. É evidente para mim que o descompromisso com a coisa pública da família Borguetti-Barros veio antes dos ovos que foram arremessados neles e em seus convidados. Acredito que, se vivo, até o senhor Giuseppe Garibaldi jogaria alguns ovos em seus “convidados”.

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